Dentre as diversas formas de se criar uma pessoa mundo afora, considerando os pontos altos e baixos desse processo, dificilmente nós, produtos dessa criação, não guardamos ressalvas aqui e ali a respeito de nossos progenitores. Faço uso dessa palavra, “progenitor”, da forma mais ampla possível, ou seja, biologicamente falando ou não. O certo é: você pode ter tido uma mãezona ou paizão ou outra figura fodona, mas guarda uma coisa ou outra deles no potinho do “não fazer igual”. Afinal, é uma nova geração. O mal (e o bem!) da dita juventude é essa crença no espírito imortal, animador e revolucionário, não é? Dá-se início a jornada do “vamos fazer diferente deles”. Dos nossos pais, família, geração anterior.

“Um Limite Entre Nós” vem alinhado à essa ideologia. O filme retrata uma família negra na qual o patriarca, Troy (Denzel Washington), um coletor de lixo humilde e durão, faz de tudo para manter seu filho Cory (Jovan Adepo) com os pés no chão. Os dois. E, por vezes, imóveis e enterrados. Troy, meia idade, já apanhara muito da vida enquanto se permitia voar com aspirações a jogador de beisebol e, por conta disso, uma irremediável amargura lhe é característica. Ao se deparar com o filho almejando um caminho no qual ele fracassou, seu instinto o guia para protegê-lo das mesmas decepções que marcaram sua trajetória. Mas… o que diferencia o remédio do veneno é a dose. A dita proteção de Troy para com Cory é tóxica, ainda que não intencionalmente. E o adolescente não aceita as restrições do pai baseadas na perspectiva de vida dele, sem levar em conta o potencial do menino e os novos tempos nos quais ele estava inserido.

O mágico deste filme, para mim, é que a atitude de Troy, apesar de claramente extrapolar o razoável, ser pessimista e improducente, não nos impossibilita compreender e ter empatia pelo personagem. Não sou mãe ainda, mas vi em minha mãe inúmeras preocupações que eram muito mais uma projeção pessoal dela – medo, fracassos, sensação de “déja vu” – do que algo que me fizesse sentido. E agora, meus caros, falando em mãe, reservo linhas e mais linhas para a brilhante atuação de Viola Davis, interpretando a mãe do moço, Rose. É inegável que o filme é conduzido pela atuação de Viola, adicionando ao desempenho também inegavelmente impecável de Washington. Num típico papel de dona de casa, submissa – mas que dá uns olés no maridão quando põe algo na cabeça – e incondicionalmente amorosa à todos da família, Rose verdadeiramente se destaca. Oscar mais que merecido a essa rainha.

Resultado de imagem para viola davis fences

PO-DE-RO-SA. Rose é emoção em carne viva e Viola é a escolha perfeita pra esse papel.

Denzel Washington mata dois coelhos numa porrada só ao atuar primorosamente e dirigir o filme. As cenas, no geral longos diálogos, visceralmente conduzidos, dramáticos (no bom sentido, por que esse adjetivo em algum ponto da humanidade virou algo pejorativo) e… densos. Se você espera em “Um Limite Entre Nós” um passeio no parque, sai fora. O filme é a adaptação de uma peça de drama, parceiro. Ou seja, é um passeio de montanha russa nas emoções da família Maxson.

Por fim, o filme me levou a pensar que em muito já fui Cory e que, apesar da resistência, em muito me torno Troy. Não, não quer dizer que estou me tornando um homão possuidor dessa voz sinistra que nem é a do Mr. Washington. Quer dizer que, apesar dos adendos – e são muitos, viu? -, a incorporação do positivo e também negativo vindo da criação é inevitável. E talvez essa seja uma das belezas por trás dessa empreitada de ter um ser humaninho vindo de você. No fundo, a gente quer uma versão melhorada de nós mesmos – e o filho também quer ser isso. Mas a História, pontual que só ela… a História se repete. E os erros também.

Elis me cantava, emocionada, o quanto lutamos contra o velho e queremos a inovação. O tal do cheiro da nova estação vindo do vento, ela dizia. Irreverência e sigamos ao novo,  jovens! Mas a verdade nua e crua vinha a seguir na mesma canção. Nossos ídolos são do passado, nós seguimos envelhecendo – alma imortal, que nada! – e a vida dá uns bons cutucões na gente também. Ficamos mais velhos, chatos, “por fora”, datados, sim.

“Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo que fizemos…Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais.”

Sugestões para você: