Parece que a cada dez anos alguém faz um novo filme de orçamento maior com a mesma trama. Sujeito imaturo, meio bon vivant, meio putanheiro é surpreendido com uma filha da puta que abandona sua filha/filho à sua porta, fazendo com que o tal indivíduo aprenda a ser homem e desenvolva um amor incondicional pela criança. Com uma ou outra alteração, essa é basicamente a história de clássicos da Sessão da Tarde como “Três Solteirões e um Bebê“, “Três Solteirões e uma Pequena Dama” e “O Paizão“.

Uma Família de Dois trilha este mesmo caminho. A história é essa aí de cima. Samuel (Omar Sy) é um sujeito imaturo, bon vivant e putanheiro em algum lugar meio paradisíaco do sul da França, onde passa seus dias fazendo ménages à trois (porque estamos na França, fosse aqui seria suruba mesmo) e trabalhando como capitão de um iate luxuosíssimo. Um belo dia, a filha da puta também acima referida aparece no iate e deixa com ele um bebê de três meses dizendo que sua vida está muito conturbada e que ela acha melhor deixar a neném com uma criança grande, promíscua e provavelmente infestada de doenças venéreas, sob o pretexto de que Samuel é o pai.

C’est pas posible!

Samuel é aquele cara boa praça que todo mundo conhece pelo menos um; o sujeito gente boa, amigo de todo mundo e que passa pela vida como se essa fosse uma festa. E é no casting desse personagem que jaz a força maior desta película. Omar Sy, ator que foi apresentado ao mundo com o blockbuster francês “Intocáveis” (que também é uma refilmagem de uma história batida), é um colosso de carisma que nem o roteiro maniqueísta e inverossímil ou a direção engessada e burocrática conseguem abalar. Muito bem assessorado por seu amigo tarado Bernie (Antoine Bertrand), Omar Sy carrega o filme nas costas e faz com que a exibição de quase 2 horas forçada por um roteiro demasiadamente prolixo seja em sua maior parte prazerosa.

Enchanté, mon cheri!

Apesar da menininha Gloria Colston, que interpreta Gloria com seus 8 anos e na maior parte do filme, ser também uma graça, o show aqui é todo de Omar Sy, que consegue imprimir, além do carisma, sentimento e ternuras genuínos, ainda que o roteiro inacreditável tente a todo custo puxar seu tapete.

Por falar nisso, o roteiro, talvez por ter sido trabalhado a algo em torno de 16 mãos (são 8 pessoas para quem tem preguiça de fazer conta), tem o único mérito de conseguir deixar livres o protagonista e seu carisma, mesmo que peque excessivamente pela prolixidade no desenvolvimento dos personagens e nas situações absolutamente inverossímeis pelas quais Samuel passa. Bons exemplos são o fato de Samuel ser um cara amigo de todo mundo mas que, estando em uma situação desesperadora, desiste de pedir ajuda a qualquer outra pessoa após ter a ajuda negada por sua patroa; ou a própria motivação para o personagem se mudar e estabelecer residência em Londres – sem falar inglês, em uma cidade desconhecida e cara – com uma recém nascida que não está registrada em seu nome, o que teria sido um pesadelo em um país onde escândalos de pedofilia são mais comuns do que os de corrupção no Brasil.

Filha da puta, Gloria e Samuel.

A direção vai por um caminho parecido. Apoiada no carisma de Omar Sy, o diretor escolhe contar a história de forma burocrática e pouco inspirada, em especial no que se refere a direção dos atores ingleses do filme, todos muito exagerados e caricatos.

De todo modo, a película cumpre com certo louvor seu papel, emociona e certamente arrancará lágrimas de muitos como arrancou de mim em alguns momentos. Apesar da premissa batida, o toque francês nessa história já contada tantas vezes faz a diferença e torna este filme, se não excelente, um bom conto sobre o amor incondicional de um pai e sobre uma filha da puta que a abandona.

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