Um dos temas essenciais da arte contemporânea é o luto (vide “The Leftovers“, “Anticristo” etc.) e, embora outros filmes tenham tentado abordar essa temática sob a perspectiva queer (“Direito de Amar“, “Na Cadência do Amor“, “O Preço de Uma Escolha 2“), nenhum mostrou o mesmo nível de humanidade e empatia para com os personagens centrais como este Uma Mulher Fantástica.

A protagonista é Marina Vidal (Daniela Vega), uma cantora e garçonete que, após a morte de seu companheiro, tem de encarar as dificuldades e inacreditável burocracia que se amontoam quando a família do falecido ressurge. Se lidar com a morte de uma pessoa amada não fosse suficiente, Marina ainda vai ter de enfrentar os desafios de uma sociedade que não a aceita como uma mulher trans.

A performance de Daniela Vega (que é uma mulher trans na vida real) é ao mesmo tempo contundente e contida, ilustrando claramente a pressão de ser um indivíduo forçadamente silenciado, mas que também adota uma postura desafiadora. Algumas cenas, como a conversa com a ex-mulher do falecido, servem como exemplo da sutileza da interpretação de Vega, assim como expressam o imenso talento do diretor Sebastián Lelio (em seu primeiro filme depois do excelente “Gloria “) em construir momentos extremamente emocionantes.

Apesar de algumas cenas parecerem ter sido inspiradas no cinema de Almodóvar (sequências de sonho ultra-coloridas, alguns elementos kitsch), Lelio apresenta uma visão única, nunca perdendo o foco da melancolia, do preconceito – e também esperança – necessárias para construir uma narrativa de temática tão pungente. Assim, Uma Mulher Fantástica é mais um exemplo da qualidade do atual cinema chileno.

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