No momento em que me deparei com a sinopse de “Una”, a primeira impressão que se formou foi de um remake pós-moderno de Lolita. E, como tal, algo que polemizasse e fosse tendecioso, romantizando abusos infantis. Entrei na sala de cinema preparada para algo abjeto. Mas o Cinema é, muitas vezes, inesperado.

Una (Rooney Mara) foi abusada por Ray (Ben Mendelsohn) quando tinha 13 anos. Dentro desta frase, alguns detalhes são omitidos – o que não significa que o fato deixa de ser abuso. Na dinâmica do “relacionamento” dos dois havia, segundo ambos, amor. Acontece que era amor vindo de uma menina que acabara de atingir sua puberdade, não tinha experiências amorosas anteriores e, reitero: era apenas uma garota de 13 anos. Acontece que era amor vindo de um homem de seus 40 e poucos anos, de personalidade formada e alto potencial de impor uma figura admirável às mais novas. Da parte de Una, creio que foi natural uma paixonite pelo vizinho, mais velho, estável, agradável. Da parte de Ray foi, sim, sujo, aceitar essa paixão e retribuí-la – ainda que ela viesse, num olhar superficial, consensualmente.

Anos após o ocorrido, ela procura Ray, agora Peter, em seu trabalho. O filme se dá a partir desta aparição corajosa e abrupta de Una em sua vida. E é aí que o longa incrivelmente conduz um espetáculo cru e que dá ao espectador espaço para digestão. Eis os dois lados da história – que não são, até hoje, tão diferentes assim. Resta a nós, diante da tela, tentar encaixar as peças de um quebra cabeças doentio e obsessivo.

Apesar do filme trazer, sim, um questionamento ante o abuso (pela pseudo consensualidade da garota), ele explicita que o que aconteceu entre os dois era errado e que danificou Una para sempre. A mulher apresenta comportamentos autodestrutivos em sua vida sexual, mostra certa obsessão para com seu abusador e ainda se comporta como a menina de 13 anos. Ainda que o abuso tivesse sido, de fato, um relacionamento entre eles, a toxicidade e o elemento do errado é deixado descarado e inquestionável. Neste sentido, a história em muito mais me agrada do que o clássico Lolita, no qual numa sequência de narrativas água com açúcar, nós, espectadores, vamos compactuando com o abusador em questão.

“Una” é perturbador. É, muitas vezes, claustrofóbico. Justamente por atestar o erro mas, ainda assim, nos mostrar seus detalhes e justificativas, sem tendenciosamente guiar ao certo. Ainda que não mostre uma cena sequer do abuso em si, o filme me fez revirar a barriga pelo simples fato de, por segundos ou minutos, me fazer “entender” a justificativa da situação toda. Sua proposta é exatamente essa: inserir em seu público o paradoxo que Una viveu como consequência do envolvimento com Ray. A vida dela nunca foi a mesma e o questionamento de que aquilo podia ou não ser abuso, podia ou não ser amor, podia ou não ser a exceção da regra assombrava sua cabeça. Na época em que aconteceu, aos 13 anos, a versão da polícia era a que lhe bombardeava o pensamento; mas e a versão que ela mesma viveu? Será que, de fato, foi tudo uma distorção ante a imaturidade pré-adolescente? Será que, por fim, encarar o abusador ou seu primeiro amor a libertará rumo à uma vida normal?

Confesso que fiquei extremamente perturbada por assistir esse filme. Seja pela temática “triggering”, seja por que o filme dá acesso à imersão na coisa toda e, como consequência, na culpa que tudo aquilo traz… é um filme que cumpre o papel de reflexão e de choque. De forma inteligente e digna.

“Una” te faz entrar na pele da vítima mas, também, na pele do abusador – e de forma tão pura que é capaz de interpretá-los sem seguir o esperado e justo julgamento sobre a situação. Por conta disso, foi uma experiência muito assustadora pra mim. Quando eu menos esperava eu estava assentindo, assim como Una fez, ao abuso em pauta.

Acredito que seja aí a grande sacada da história. Se até você, espectador de longe, diante da situação, é rapidamente tentado a entender a coisa toda como amor, como a garota, aos 13 anos, não o faria? Por fim, essa disfarçada alteridade do longa nos traz angústia e confusão.

A proposta é atingida em cheio.”Una” não vem com intuito de legitimar ou defender abuso infantil. Não se propõe a, também, bater no clichê da história de abuso e consciência de tal; vai muito além. O filme põe na mesa os porquês, as consequências e os conceitos de tudo que circunda um abuso. E estende à sua própria pele o sofrimento que ele causa.

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