A grosso modo, um mockumentary é uma sátira. Um documentário fictício feito para questionar, de forma mais cômica, certos padrões de comportamento e situações que consideramos corriqueiros e que raramente paramos para analisar.

Vândalo Americano, produção original da Netflix, aproveitando a enxurrada de documentários que atingem o público ultimamente, é um mockumentary que serve para questionarmos o assunto do momento em tantas áreas diferentes: Ele é culpado ou inocente?

O árduo, mas recompensador, processo de investigação.

Nunca fui muito fã de mockumentary. Com a exceção de Borat (2006), Eu Ainda Estou Aqui (2010) e O que Fazemos nas Sombras (2014) (indicado por nós no Garimpo Netflix: Vampiros!), sempre achei que estava desperdiçando meu tempo em ver um “documentário” sobre algo que não ocorreu. Digo isso especialmente por ser um grande consumidor de bons documentários (meus alunos que digam) e foi justamente por conta desse meu gosto que cheguei à série cuja crítica você está lendo.

ndalo Americano pega exatamente o mesmo molde de um dos melhores documentários que vi na vida, o Making a Murderer (2015) – que também segue o formato serial e também é produção original da Netflix (sua safadinha…) – e cria uma sátira que enfatiza alguns dos grandes problemas mostrados no documentário na qual se inspira.

Making a Vandal… American Murderer…?

Caso você viva em outro planeta, ou seja nosso editor-chefe Gustavo, e nunca tenha assistido Making a Murderer, o doc. cobre a vida de Steven Avery, condenado por homicídio depois de ter sido inocentado de um crime violento que não teria cometido, mas pelo qual cumpria pena. Todos os envolvidos nas 2 condenações tinham motivos pessoais para, digamos, apreciar a imagem de Steven na prisão. Durante toda a série vemos que a polícia e alguns cidadãos armaram para ele na 1ª condenação e vemos, no mínimo, MUITOS indícios que apontam para a sua inocência no caso do homicídio, incluindo, claro, outra armação da polícia.

Vândalo Americano muda o crime, o cenário e os cargos dos envolvidos, mas segue exatamente o mesmo tipo de narrativa.

Teorias… muitas teorias.

Em vez de um assassinato, nós temos vandalismo feito com MUITAS pirocas desenhadas nos carros dos professores da escola de ensino médio onde nosso suspeito estuda. Em vez de um sistema de justiça corrupto, nós temos o corpo docente e direção de uma escola já fartos de nosso estudante. Em vez de Steven Avery, nós temos Dylan Maxwell (Jimmy Tatro), nosso estudante, que leva a culpa de ter desenhado essas rolas nos carros e acaba sendo expulso da escola e impedido de se formar.

Eu disse MUITAS pirocas.

A grande questão levantada com maestria pela série é a justiça distorcida e pré-conceitos que temos com certas pessoas, não por conta de gênero, opção sexual, etnia ou credo, mas pelo histórico de más decisões que todos carregamos nas costas. Professores e membros da justiça sempre apontam o dedo para quem deve ter feito algo, muito mais pelo seu perfil do que pelas circunstâncias em si. É mais fácil encaixar o já dito “criminoso” no crime do que atender ao princípio da presunção de inocência, ou seja, partir do crime e não do suspeito.

Uma outra grande sacada da série é discutir, mesmo que brevemente, a questão da privacidade vs. segurança, já que diversos momentos-chave dependem da violação desse direito para confirmar/eliminar suspeitas. No entanto, a série possui altos e baixos, exagerando nos plot twist e fillers, que te obrigam a rever inúmeras vezes as teorias outrora descartadas.

No final, tanto Making a Murderer quanto Vândalo Americano confirmam o que já sabemos. Todo mundo tem segredos, todos exageram e, especialmente, todos mentem.

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