O cinema de ficção-científica sempre foi o espaço para se metaforizar acerca das mais profundas questões humanas. A imensidão do espaço, a solidão sideral, a pequenez do nosso planetinha frente ao universo, a economia de sons, tudo contribuiu para que este gênero se firmasse como uma plataforma para viagens mais interiores. Estão aí 2001: Uma Odisseia no Espaço e Alien, o Oitavo Passageiro, que não me deixam mentir. Bem, nada disso acontece em Vida, mas o resultado até que é bastante divertido.

O plot é bem simples: a tripulação multinacional da Estação Espacial Internacional faz a maior descoberta dos últimos tempos – um ser unicelular proveniente de Marte. Só que a celulazinha se mostra mais inteligente que todos os humanos e disposta a qualquer coisa para sobreviver. Calvin, o nome que a célula-ET recebe, entra em modo Predador-Alien e aí a coisa fica feia. Os rostos mais conhecidos do elenco são Jake Gyllenhaal, como David Jordan, um astronauta que bateu o recorde de dias no espaço e não tem a menor vontade de voltar para a Terra, e Ryan Reynolds, em participação nesse longa roteirizado pelas mãos que escreveram Deadpool, como o engraçadinho Rory Adams.

Vida aposta numa pegada muito mais de thriller que de sci-fi. E essa escolha, embora faça o longa pagar o preço em algumas áreas, valeu a pena no quesito diversão. O filme quer dar sustos no espectador, quer causar tensão, e consegue. O ritmo super compassado da narrativa e o roteiro amarradinho se casam perfeitamente. Pontos também para a edição, extremamente bem feita. A fotografia também enche os olhos, claramente inspirada em Gravidade. A bem da verdade, que filme passado no espaço não vai se inspirar naquela beleza de fotografia que Emannuel Lubezki fez para a joia de Alfonson Cuáron (e assim termina o momento fã, desculpem a digressão)?

As atuações vão em uma linha bem contida. Aliás, a construção das personagens talvez seja o único fio solto em um roteiro, como já dito, bem construído. Não sobra muito espaço (com trocadilhos) para os atores fazerem mais do que fazem. O excesso de closes acaba contribuindo também para acentuar a fragilidade na elaboração dessas criaturas. Em seus 104 minutos, você não cria elos com aquelas vidas, ainda que a história apele para um recém-pai, para um cientista paraplégico que sente finalmente livre na falta de gravidade e um cast com diferentes raças e nacionalidades. Ah, o sotaque da  atriz russa Olga Dihovichnaya é uma delícia de ouvir.

Um outro ponto menos feliz do filme é que, pela própria escolha narrativa, ele não consegue fugir dos clichês do gênero “filme-para-dar-susto”. Embora o resultado seja efetivo, o espectador já viu tudo aquilo antes. É reiterativo em alguns momentos até. A própria ambientação claustrofóbica dos cenários aponta para outras produções.

Mas, entre mortos e feridos, salvam-se todos. O trunfo deste Vida é não soar pretensioso em nenhum momento. Ele usa o seu orçamento alto para fazer um filminho simples, capaz de rir de si mesmo em alguns momentos. Vale o ingresso com pipoca (e vocês sabem como pipoca de cinema anda pela hora da morte). A película cumpre o que ela prometeu, nem mais nem menos.

A última cena merece uma atenção especial no quesito trilha sonora. Uma super homenagem aos filmes B do gênero. Totalmente deslocada, risível, kitsch. Adorável.

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