Antes de iniciar a análise do título em questão, devo primeiramente realizar o meu desabafo acerca dos caminhos que toma o Cinema atualmente. War Machine estreou essa semana na Netflix diretamente (e não é nem de perto um dos primeiros nesse formato). A mais nova obra do belíssimo diretor sul-coreano Bong Joon Ho, Okja, foi lançada agora em Cannes e, em alguns dias, irá direto para esse serviço de streaming, sem sequer passar pelas salas (ao que tudo indica). Muitos vêem nesse tipo de serviço uma salvação para o contato com o audiovisual. Eu vejo como uma comodidade característica dessa época, em que as pessoas consomem o que há de mais fácil (mas não o que há de melhor), mais rápido, mais plástico (em contraposição ao mais verdadeiro). Cinema é para além do filme. Lembro-me que na Escola de Cinema, meu professor, Jorge Durán, falava que tínhamos a vantagem de escrever para personagens que são fisicamente três, cinco vezes maiores do que nós mesmos. Pois é, agora parece que estamos, cada vez mais, escrevendo para protagonistas três, cinco vezes menores.

Ir ao cinema é uma ação quase ritualística.

Certa vez, nosso colaborador Anderson Gomes chegou a fazer o sinal da cruz, de maneira instintiva, ao sentar-se na poltrona da sala escura. E esta sala é conceitual, autorreferencial: na sala estamos dentro de uma caixa escura, tal qual a película (quando assim eram feitos os filmes) sendo criada com as imagens em sua superfície; e nós estamos nos transformando nessa mesma caixa, com as imagens que são marcadas em nossa visão, alterando a nossa superfície; deixando-nos mais profundos. A região da Cinelândia, no Centro da cidade do Rio de Janeiro, carrega esse nome por ter sido um quarteirão repleto de cinemas. Atualmente, há apenas um remanescente: o outrora chamado Odeon (que, por algum tempo, foi sustentado pela Petrobras), mas cuja tradição já foi maculada pelos novos tempos e hoje a histórica sala é chamada Centro Cultural Luis Severiano Ribeiro. O cinema desaparece… estamos em guerra, mas o nosso inimigo é aquele que deveria ser o motivo pelo qual o Cinema existe: o espectador. Como uma cidade bombardeada, pilhada, ele tenta se reinventar, mas perde um pouco da sua essência, da sua cultura, das suas características naturais.

Dois perdidos em uma terra “estranha”.

Tal qual o Cinema atualmente, o Afeganistão estava ocupado por uma outra cultura, que queria reinventar o país. Mas fazê-lo com os seus elementos, que não são próprios daquele lugar. Levar “civilização”, democracia, “evolução” para regiões “atrasadas”. Todo aquele discurso de alguém que se sente superior a outrem. É a ação norte-americana em todo e qualquer momento de sua História. Porém, quando os soldados tão convictos de sua missão caridosa passam a sofrer uma investida contrária por parte do governo dos Estados Unidos, um conflito ideológico se inicia. Esta é a narrativa que acompanhamos em War Machine, mais novo filme de David Michôd.

O General Glen McMahon (em atuação demasiado caricata de Brad Pitt; prefiro suas caricaturas em Bastardos Inglórios e Queime Depois de Ler) vai na contramão do presidente Barack Obama, que objetiva a retirada das tropas americanas no país outrora de Bin Laden. Glanimal (como é carinhosamente chamado por seus comandados) é um oficial com mentalidade vencedora. Voz forte, olhos penetrantes e modus operandi peculiar. Sua convicção é inabalável e ele deseja garantir ao povo afegão as vantagens do modo de vida promovido pela “América”. Para isso, ele deve vencer os insurgentes locais, fazer aliança com o governo-fantoche colocado pelos ocidentais e ganhar a confiança da população, garantindo, por exemplo, uma das principais instituições de povos que se entendem civilizados: a eleição.

Mas como um aliado afegão diz, durante o filme: “eles não entendem a eleição. Eles só não querem ter suas cabeças decepadas, então votam em quem os chefes locais ordenam” (é o coronelismo brasileiro que existe até hoje? Perguntei-me isso durante a passagem). McMahon, ainda assim, acredita no seu papel ideológico e insiste em seguir no seu caminho, contra tudo e contra todos. Antes ideal de liderança, sugerindo quase um culto à personalidade por parte de seu pelotão, Glen encontra a possibilidade de descer ladeira abaixo. Mas ele insiste no que acredita. Ainda que isso seja alvo de um fuzilamento da opinião pública (sinto falta de homens assim; quando homens ainda eram homens de verdade).

O filme, diferente do que se costuma ver no comumente infantil e ideológico cinema americano (como O Dia do Atentado ou Sniper Americano, dentre uma infinidade de outros), propõe uma discussão interessantíssima. Não é porque estamos acompanhando a história de Glen e seu desejo por “salvar” (repare que eu coloco as aspas exatamente para expressar o sentimento dos personagens e não porque eu efetivamente acredito nisso) o Afeganistão, que iremos nos deparar com o velho discurso criminoso salvador de que a América vem trazer a luz aos habitantes que vivem nas trevas. O diretor coloca em questão isso: os afegãos não querem a presença americana ali, pois isso só traz maiores flagelos a eles todos. Não estão interessado no dito “avanço” dos ocidentais. Eles querem resolver suas questões sozinhos.

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O inabalável “Glenzão”, o “Glanimal”.

David Michôd desmistifica (para os americanos, é lógico) a figura produzida de que os árabes são malucos homens-bombas que existem para antagonizar o papel de Paladino do Amor da “boa e velha América”, repleta de seus homens brancos que falam em liberdade. Nesta história, o questionamento – incomum a um militar – vem pontualmente de um soldado negro, que leva em seu uniforme a bandeira cheia de estrelas. “Quem é meu inimigo? Porque estamos aqui? Eu não acho que nos queiram aqui.”, se confunde o jovem fuzileiro.

Apesar da temática delicada e de um debate que sugere profundidade (e, de fato, assim é), War Machine parece se sustentar muito mais no seu tom satírico, que – como invoca o gênero – tenta ridicularizar ao extremo essa polarização fabricada. Sim, as ações ocidentais no Oriente Médio beiram o ridículo e Michôd trabalha em cima disso, desde a trilha sonora às atuações quase teatrais. No entanto, a sensação que fica é que a realização abusou desses recursos, tornando a obra, por vezes, um tanto chata e pouco interessante para quem acompanha a vida em forma de parábola do carismático “Glenzão”.

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