Intolerância é uma palavra pesada, “não tolerar algo”, ou seja, não aceitar aquilo que é uma pessoa, ou suas escolhas e ideologias. É a partir daqui que se instaura o preconceito e este, por sua vez, é ter uma definição ou conceito de determinada coisa antes sequer de considerá-lo, seja por medo, ignorância ou por intolerância.

Para uma criança, este mundo de conceitos está distante, ela nota tudo, algo menos denso e não nota o quão impressionantemente pesado pode ser aquilo, enquanto para nós é uma crítica complexa, já que estamos mais familiares com esses “conceitos”, que a criança pequena ainda não tem.

Estava em casa com nada para fazer, passando pelos canais da TV, com nada interessante e eis que surge a ideia de assistir “Zootopia”, um filme que estava sendo elogiado pela crítica e pela internet. Eu me preparei para assistir um filme divertido com alguma mensagem por trás, como já é de costume dos filmes da “Disney”.

Quando eu terminei o filme comecei a refletir sobre o quão densa é esta película. Aqui está uma introdução para crianças sobre intolerância e maquiavelismo, como um ser vivo (nesse caso animais) pode ser tão mau a ponto de fazer outro ser agir de uma outra forma que não possui a mínima semelhança com seu caráter original. Isso pode parecer muito comum, mas perceba a ideia maquiavélica que é controlar um outro indivíduo. E esse não foi meu único pensamento: como uma história infantil pode ser tão realista ao ponto de abordar  a não aceitação? Esses são os tópicos que estruturam “Zootopia”.

O enredo é o seguinte: neste mundo onde vivem só animais, os predadores e as presas vivem em harmonia, conseguindo trabalhar juntos e conviver sem problemas. Judy Hopps  (Dublada por Ginnifer Goodwin no original, e por Monica Iozzi no nacional) é uma coelha que vive com seus pais afastados da cidade grande. Seu o sonho é o de se tornar uma policial na cidade de “Zootopia”, porém todos são contra. Judy acaba indo para a cidade, consegue entrar para o departamento de polícia e, depois de penar muito, ela se envolve em um caso no qual os predadores estão voltando ao seu estado natural e ela terá ajuda de Nick (Dublado por Jason Bateman no original, e por Rodrigo Lombardi no nacional), uma raposa traiçoeira, que só aceita ajudá-la pois Judy o chantageia.

“Mas onde fica a parte de intolerância? Você não mencionou nada na descrição do enredo…”, você deve estar se perguntando nesse momento. O ponto é que quando os predadores “voltam às origens”, as presas começam a se afastar dos outros predadores, mesmo dos que não agem dessa forma. E, a partir daí, Zootopia muda. Leopardos perdem empregos, leões são discriminados.

A grande abordagem do filme é o mistério para o porquê dos predadores estarem agindo dessa forma, já que Zootopia vive há anos em paz . O roteiro constrói muito bem esse clima de investigação. Quando sempre achamos que estamos próximos da resposta, alguns minutos depois ela será quebrada para você. Há pelo menos umas três reviravoltas no enredo, que realmente são chocantes, sendo que as três miram para o mesmo tópico “o que aconteceu com os predadores?”.

Os animais são ótimos e possuem umas sacadas geniais. Como a cena dos bichos preguiça, Judy precisa de uma informação rápida e os atendentes do local são preguiças e isso desenrola uma cena hilária com a provocação de Nick com a coelha. Judy enfrenta problemas ela mesma na hora de entrar no departamento de polícia, já que ela é feminina e pequena, enquanto os outros integrantes são animais de grande porte. Concluindo, Judy é a perfeita metáfora para os incapacitados e oprimidos em seu local de trabalho.

É interessante citar as referências encontradas durante o longa, duas se destacam. Na primeira temos a de O Poderoso Chefão, reproduzindo lindamente a cena inicial da primeira parte do filme, o casamento da filha com Don Corleone resolvendo assuntos particulares. E a segunda, surpreendentemente, é relacionada à Breaking Bad.

A ambientação ainda possui seu valor. A grande metrópole, uma cidade futurística, com a tecnologia mais avançada possível. Aqui tudo é muito colorido e bonito. Uma das coisas que eu achei mais interessante é que quando Judy chega de trem para a cidade ela passa por diferentes ambientes, um de neve, uma floresta e um deserto, uma solução visualmente bonita de se assistir.

Em suma, Zootopia é um filme acima da média, que aborda temas muito pesados e os transmite de forma instigante e criativa. Aqui o filme funciona de maneira animada e não cansativa. Com certeza merece a indicação de “Melhor Animação”, já que foi um filme tão bem feito e com certeza um dos melhores já apresentados pela Disney. No aguardo de uma sequência.

 

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